sábado, 5 de outubro de 2013

Querido Diário



Não tenho grandes palavras,
Creio que as esgotei,
Em mais do que um discurso fútil
Ou apenas útil na alma de alguns.

Mesmo as pequenas,
Aquelas que mal se ouvem
Já não me socorrem
Nos momentos mais ineficazes do coração.

Não creio por isso,
Ainda saber tocar alguém
E deixar-se ser tocada por ele.

Tampouco creio, que ao passar por alguém,
Sinta os seus olhos cravados em mim
E um meio sorriso de contentamento desmedido.

A vida não me ensinou a chorar,
Mais do que a rir,
Todavia apenas oscilo entre ambos
Sem saber o que fica no limbo.

Curioso saber que vivo assim
Entre limites vertiginosos
Sem apoio
Sem clareza
Sem o mínimo de bom-senso.

Oh! Se toda a gente que conheço
Vivesse assim, decerto que todo o seu fascínio
Ou respeito pela personagem que encarno
Seria reduzido ao mínimo confortável.

É frequente saírem sons da minha boca,
Mas é raro que se chamem palavras.
Essas formam-se na cabeça,
Outras no coração,
Mas nenhuma é dita pela boca.

Creio então,
Que parte de mim é um disfarce.
Melhor ainda,
Que parte de mim é real,
Porque a maior parte é disfarce.

Visto-o e dispo-o,
Por vezes deixo que me vejam nua,
Mas é inevitável que o vista de novo.

Quando tu me sorris,
Sabes no que penso?

Quando os meus olhos,
Tocam em ti,
Sabes onde andaram antes?

Oh que desprezo me dás,
Ao nem sequer te importares
Em pensar nisso.

''Não penses nisso'',
''Não sei o que te diga''.

Ah palavras vãs, ditas quiçá,
Com tamanha malícia da alma,
Que nem eu as sei pronunciar!

Não te amo não,
Nisso a dúvida não me assiste,
Nem o coração mo apregoa.

Mas não é por não te querer
Dar acordo ao amor
Que deixo de pensar
Como seria se um dia me visses como mulher.

Querido diário,
Deixa-te de tretas.

2013

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